Data da morte:16/12/1984

Local:São Francisco

Eloy Ferreira da Silva, filho de Arlindo Ferreira da Silva e Maria Gomes Ferreira, era casado com Luzia e pai de 10 filhos. Quando foi assassinado, ocupava o cargo de presidente do STR de São Francisco. Era natural de Goiás, de onde saiu com 8 anos de idade (1938), indo para o Norte mineiro. Filho de lavradores, ele e seus parentes trabalhavam como agregados até se tornarem posseiros em áreas devolutas na região da Serra das Araras, onde viviam aproximadamente 220 famílias.

No dia 16/12/1984, às 9h, Eloy foi assassinado no distrito de Serra das Araras, com quatro tiros: no peito, na garganta, no abdômen e na parte anterior ao braço, sugerindo que fora disparado pelas costas. O executor, Paulo Leonardo Pereira, tinha um cúmplice, José Mendes Amorim, também acusado pela morte do sobrinho de Eloy, Praxedes Ferreira da Silva, em 1978.

Dois dias antes de ser assassinado, Eloy havia denunciado à secretaria de estado do trabalho e ação social de Minas Gerais, por meio de carta, uma série de ameaças que vinha recebendo por parte de Paulo Leonardo Pereira, que arrancava também as cercas de sua propriedade. Naquele final de semana, Eloy havia programado uma viagem a Belo Horizonte para denunciar pessoalmente, aos órgãos competentes, as ameaças de morte que vinha sofrendo.

Minutos após o sepultamento de Eloy, o delegado encarregado do caso, Márcio Lima Carence, indiciava como executores do sindicalista os grileiros Paulo Leonardo Pereira e José Mendes Amorim. Após 10 dias do ocorrido, os acusados se apresentaram às autoridades, na delegacia de homicídios de Belo Horizonte, a 750 quilômetros do local do crime. A partir do inquérito policial, a defesa dos acusados montou a tese de legítima defesa, que foi acolhida pela Promotoria Pública e pelo Poder Judiciário. O executor do crime foi condenado a sete anos de prisão, porém recorreu da decisão e não foi preso. Quanto ao cúmplice, José Mendes de Amorim, e o suposto mandante, sequer foram indiciados, prevalecendo a impunidade.

Paulo Leonardo não foi o único beneficiário da morte do sindicalista:

"no dia 18 de dezembro enquanto o corpo de Eloy descia à sepultura, latifundiários e comerciantes ricos de São Francisco soltavam rojões, devoravam suculentos churrascos e se embriagavam alegremente. Estavam comemorando, aliviados, o desaparecimento daquele que, com tanta firmeza, liderara a resistência dos trabalhadores do campo contra o latifúndio."

Após o assassinato de Eloy, a Contag recebeu um telegrama denunciando que o crime havia sido cometido em virtude da atuação do líder sindical em defesa das famílias de agricultores pressionadas por grileiros.

"Em 1981, Eloy já denunciara publicamente a perseguição que ele e seu companheiro sindical Marcelino Pereira da Silva eram submetidos pelo Juiz local. Na mesma ocasião, denunciou que o Juiz havia obrigado onze pequenos proprietários a assinarem (com as digitais) a desistência de parte de suas terras, beneficiando um grande grileiro da região."

Eloy ficou conhecido como herói dos posseiros em razão de sua incansável luta em defesa desses e de pequenos proprietários contra a invasão de grandes grileiros e latifundiários. Nos anos 1970, fez parte de um grupo de lideranças rurais formado pela atuação das CEBs e da CPT, com forte atuação nas regiões Norte e Noroeste de Minas Gerais. Esse grupo almejava a organização de sindicatos e o fortalecimento das lutas coletivas dos camponeses, para fazer frente ao processo de expropriação, repressão e violência desencadeado por latifundiários, empresários, grileiros e agentes do Estado contra os camponeses.

Em 1978, Eloy se tornou delegado sindical na Serra das Araras e, em 28 de outubro do mesmo ano, seu sobrinho Praxedes Ferreira da Silva, de 21 anos, foi assassinado. Eloy foi eleito Presidente do STR de São Francisco em 1981 e logo passou a atuar na defesa dos trabalhadores rurais do seu município e no apoio a outras lutas dos trabalhadores na região.

No dia 21/04/1984, Eloy foi condecorado com a Medalha da Inconfidência, entregue pelo governador Tancredo Neves, tendo sido o primeiro trabalhador rural a receber a comenda. Na ocasião, Eloy afirmou ao jornalista que o entrevistara:

"A política mudou e está ficando melhor para o nosso lado. Está na hora da reforma agrária sair do papel porque a terra é um dom de Deus para todos e não pode ficar concentrada na mão de quem não produz."

Após assumir a presidência do STR de São Francisco, Eloy se envolveu intensamente na liderança de conflitos pela posse da terra que se aguçavam na região, no período final da ditadura militar. Durante os três anos que antecederam a sua morte, ele denunciava todo tipo de violência dos grileiros e latifundiários que avançavam a posse dos trabalhadores rurais.

O seu trabalho levou à solução do conflito da fazenda Vereda Grande, onde moravam 36 famílias de pequenos posseiros, contra a invasão de Antônio Luciano. A referida fazenda foi a primeira área destinada à reforma agrária, em Minas Gerais, a ser desapropriada por dispositivo do Estatuto da Terra que previa a desapropriação de terra onde fosse provado um conflito de interesse social.

O nome de Eloy Ferreira da Silva consta nas publicações “Camponeses Mortos e Desaparecidos: Excluídos da Justiça de Transição”, “Relatório final: Violações de Direitos no campo 1946 a 1988”, “Retrato da Repressão Política no Campo – Brasil 1962-1985: Camponeses torturados, mortos e desaparecidos”, “Assassinatos no campo crime e impunidade 1964-1986”, “Fetaemg 30 anos de luta 1968 a 1998”, “Rua Viva: O Desenho da Utopia” e “Eloy: Morre uma voz, nasce um grito”. Ele ainda é citado no documento do Serviço Nacional de Informações Relatório do (SNI), nº 11338/85/ABH/ACE, que trata de “Problemas Fundiários – Reforma Agrária” (SNI, 1985, p.14). Consta que a família não entrou com pedido de anistia.

Há informações sobre este caso também no Relatório Parcial da Comissão da Verdade em Minas Gerais - um ano de atividades.

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